Castelo Branco: Migrantes recebem menos pelo mesmo trabalho

Burocracia e desigualdade salarial são algumas das queixas da população estrangeira residente no concelho de Castelo Branco, revela o diagnóstico municipal.

Fazem o mesmo trabalho que os portugueses, em alguns casos até são mais qualificados mas continuam a receber menos.

Esta é uma das conclusões do estudo feito na comunidade migrante do concelho de Castelo Branco que deu origem ao Diagnóstico Municipal para a Integração de Migrantes, que foi apresentado no seminário do Dia Municipal para a Igualdade, realizado na cidade.

Segundo dados oficiais do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em Castelo Branco vivem quase 1300 migrantes, com a comunidade brasileira a ser a mais significativa, ultrapassando as 300 pessoas.

Segue-se a ucraniana com mais de 180 e a romena com cerca de 160.

A comunidade africana mais representativa é a cabo-verdiana, com mais de 110 migrantes.

De fora deste estudo ficaram os naturais de países da União Europeia que nos últimos anos começaram também eles a povoar diversos concelhos da região.

Luís Carvalho, do CEDRU-Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urbano, aponta a desigualdade salarial como um dos entraves à integração dos migrantes.

“Existe claramente uma assimetria ao nível daquilo que são as realidades salariais para o mesmo trabalho. Claramente para trabalhos idênticos os migrantes recebem valores muito menos significativos e é necessário, de algum modo, garantir essa igualdade salarial”.

Para o investigador não é possível falar de uma integração sem que haja essa igualdade salarial, sendo da opinião que ela é uma condição essencial para fixar os migrantes no concelho, atrair as famílias e chamar mais compatriotas.

A maior parte da comunidade migrante que vive em Castelo Branco “está empregada” mas há também uma franja cada vez maior que não trabalha, pela simples razão que veio para Castelo Branco para estudar. Dos mais de 1500 novos estudantes que chegam este ano letivo ao Instituto Politécnico de Castelo Branco cerca de 230 são estrangeiros, soube-se ainda recentemente.

E há ainda que contar com os que entram pela porta do ensino profissional.

“Muita desta população, na faixa dos 18-20 anos, vem para aqui estudar e de algum modo é preciso garantir que quando terminam os seus cursos eles se sintam bem o concelho, que existam oportunidade de emprego e possam ficar aqui após a conclusão desses estudos”, diz o coordenador do diagnóstico. Luís Carvalho não duvida que a população migrante em Castelo Branco vai continuar a crescer.

“Se antigamente os imigrantes que vinham para o nosso país ficavam em Lisboa hoje procuram melhores condições de vida e essas estão nas localidades do interior, onde ainda vai havendo segurança e emprego”.

DIFICULDADES

Muitos dos migrantes ouvidos pelos autores do diagnóstico sentem-se esmagados pela burocracia, com cerca de 16 por cento dos inquiridos a considerar que é um problema muito grave e 55,6 por cento um problema grave. A prestação de informações contraditórias entre serviços é outra falha, tal como a falta de um kit de acolhimento que ajude com informações úteis.

“A questão que mais os afeta é a carga burocrática que não compreendem. Quando se deslocam a um serviço são reencaminhados para outro e acabam de ter de voltar ao mesmo. Temos de garantir que isto não aconteça”, aconselha Luís Carvalho.

Uma das soluções poderá estar no reforço dos Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), que tem cerca de uma centena de representações em todo o país.

Para Luís Carvalho estes centros deveriam ver reforçada a sua capacidade, centralizando a informação num único espaço.

O CLAIM de Castelo Branco atendeu quase 500 pessoas entre novembro de 2016 e dezembro de 2017, dos quais 155 indianos, 131 brasileiros e 63 paquistaneses.

Cabo-verdianos, sírios, ucranianos e angolanos são outros países de origem de migrantes recebidos neste serviço.

Mais de 160 atendimentos foram feitos a pessoas em situação irregular e a regularização na sua situação é mesmo o motivo principal pelo qual se recorre e este serviço, seguindo-se a obtenção da nacionalidade e os apoios sociais e reagrupamento familiar.

Um quarto destas pessoas tem entre 26 e 35 anos.

Ter a família consigo é a primeira prioridade dos inquiridos.

Logo a seguir vem o saber falar bem português e ter trabalho.

Fonte: Reconquista